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sábado, 25 de maio de 2013

"Eu só ando por dentro de mim; se fui em outro lugar foi pra me ver. Não saio de dentro de mim nem pra pescar. Ando mais por dentro de mim do que na estrada. Passarinhos existem para dar movimento ao entardecer. Eu me recolho no abandono para ser livre." 
(Manoel de Barros)

quinta-feira, 14 de março de 2013

Dia da Poesia!!!

IV  
"No Tratado das Grandezas do Ínfimo estava
escrito:
Poesia é quando a tarde está competente para
Dálias.
É quando
Ao lado de um pardal o dia dorme antes.
Quando o homem faz sua primeira lagartixa
É quando um trevo assume a noite
E um sapo engole as auroras."
(Manoel de Barros - Uma Didática da Invenção do "O Livro das Ignorãnças") 

sábado, 14 de janeiro de 2012

Trecho de Pêssego, de Manoel de Barros

"É pelo beijo que o amor se edifica.

É no calor da boca

Que o alarme da carne grita

E se abre docemente

Como um pêssego de Deus."

domingo, 28 de março de 2010

3.4 - de Manoel de Barros

O azul me descortina para o dia. Durmo na beira da cor*. Vejo um ovo de anu atrás do outono. ................................... (Eu tenho amanhecimentos precoces?) ................................... Cresce destroço em minhas aparências. Nesse destroço finco uma açucena. (É um cágado que empurra estas distâncias?) A chuva se engalana em arco-íris. Não sei mais calcular a cor das horas. As coisas me ampliaram para menos. *Para o meu marido.

segunda-feira, 22 de março de 2010

1.5

Eu sou meu estandarte pessoal. Preciso do desperdício das palavras para conter-me. O meu vazio é cheio de inerências. Sou muito comum com pedras.

segunda-feira, 15 de março de 2010

1.3

Eu vim pra cá sem coleira, meu amo. Do meu destino eu mesmo desidero. Não uso alumínio na cara. Quando cheguei neste lugar - Só batelão e boi de sela trafegavam. Aqui só dava maxixo e capivara. Mosquito usava pua de 3/4 . Falo sem desagero. Desculpe a delicadeza. Meu olho tem aguamentos. (Fui urinado pelas ovelhas do Senhor?) "Para uma amiga".

quinta-feira, 11 de março de 2010

2.5

Ando muito completo de vazios. Meu órgão de morrer me predomina. Estou sem eternidades. Não posso mais saber quando amanheço ontem. Está rengo de mim o amanhecer. Ouço o tamanho oblíquo de uma folha. Atrás do ocaso fervem os insetos. Enfiei o que pude dentro de um grilo o meu destino. Essas coisas me mudam para cisco. A minha independência tem algemas.

terça-feira, 9 de março de 2010

O catador

Um homem catava pregos no chão. Sempre os encontrava deitados de comprido, ou de lado, ou de joelhos no chão. Nunca de ponta. Assim eles não furam mais – o homem pensava. Eles não exercem mais a função de pregar. São patrimônios inúteis da humanidade. Ganharam o privilégio do abandono. O homem passava o dia inteiro nessa função de catar pregos enferrujados. Acho que essa tarefa lhe dava algum estado. Estado de pessoas que se enfeitam a trapos. Catar coisas inúteis garante a soberania do Ser. Garante a soberania de Ser mais do que Ter.

sábado, 5 de setembro de 2009

Para um dia perfeito (como o de hoje):

"Quero a palavra que sirva na boca dos passarinhos".

(Manoel de Barros)

terça-feira, 7 de julho de 2009

Minha amiga, minha metade! Que Deus te proteja, te cuide, te olhe e empreste seus ombros (todos quantos tiver) para quando precisares e estiveres na minha ausência, eu não me sinta tão culpada por não estar ao seu lado. É seu aniversário, é o dia que Ele disse: - Desce e vire jardim! Jardim por todos os lugares que passares, flores para todos que te mereçam. Vá. E você veio! "Amizade Jardim de Flores" és tu ( e que fique claro, não estou negando os espinhos que fazem parte dele: aceito-os todos). Feliz aniversário! Meu presente: Excertos de "Diário de Bugrinha", dd Manoel de Barros.
  • O nome de um passarinho que vive no cisco é joão ninguém. Ele parece com Bernardo.
  • Formiga é um ser tão pequeno que não agüenta nem neblina. Bernardo me ensinou: Para infantilizar formigas é só pingar um pouquinho de água no coração delas. Achei fácil.
  • Eu queria crescer pra passarinho...
  • A voz de meu avô arfa. Estava com um livro debaixo dos olhos. Vô! o livro está de cabeça pra baixo. Estou deslendo.
  • Um sapo feneceu 3 borboletas de uma vez atrás de casa. Ele fazia uma estultícia?
  • O Bernardo fala com pedra, fala com nada, fala com árvore. As plantas querem o corpo dele para crescer por sobre. Passarinho já faz poleiro na sua cabeça.
  • Choveu de noite até encostar em mim. O rio deve estar mais gordo. Escutei um perfume de sol nas águas.
  • As árvores me começam.
  • Uma violeta me pensou. Me encostei no azul de sua tarde.
  • Hoje completei 10 anos. Fabriquei um brinquedo com palavras. Minha mãe gostou. É assim: De noite o silêncio estica os lírios.

segunda-feira, 6 de julho de 2009

De "O Guardador de Águas", de Manoel de Barros

VI
Descobri aos 13 anos que o que me dava prazer nas
leituras não era a beleza das frases, mas a doença delas.
Comuniquei ao Padre Ezequiel, um meu Preceptor, esse gosto esquisito.
Eu pensava que fosse um sujeito escaleno.
- Gostar de fazer defeitos na frase é muito saudável, o Padre me disse.
Ele fez um limpamento em meus receios.
O Padre falou ainda: Manoel, isso não é doença,
pode muito que você carregue para o resto da vida um certo gosto por nadas...
E se riu.
Você não é de bugre? - ele continuou.
Que sim, eu respondi.
Veja que bugre só pega por desvios, não anda em estradas -
Pois é nos desvios que encontra as melhores surpresas e os ariticuns maduros.
Há que apenas saber errar bem o seu idioma.
Esse Padre Ezequiel foi o meu primeiro professor de
gramática.

quinta-feira, 2 de julho de 2009

"Me procurei a vida inteira e não me achei — pelo que fui salvo". (Manoel de Barros)

terça-feira, 30 de junho de 2009

O Livro sobre o Nada

(Manoel de Barros)

  • Com pedaços de mim eu monto um ser atônito.
  • Tudo que não invento é falso.
  • Há muitas maneiras sérias de não dizer nada, mas só a poesia é verdadeira.
  • Não pode haver ausência de boca nas palavras: nenhuma fique desamparada do ser que a revelou.
  • É mais fácil fazer da tolice um regalo do que da sensatez.
  • Sempre que desejo contar alguma coisa, não faço nada; mas se não desejo contar nada, faço poesia.
  • Melhor jeito que achei para me conhecer foi fazendo o contrário.
  • A inércia é o meu ato principal.
  • Há histórias tão verdadeiras que às vezes parece que são inventadas.
  • O artista é um erro da natureza. Beethoven foi um erro perfeito.
  • A terapia literária consiste em desarrumar a linguagem a ponto que ela expresse nossos mais fundos desejos.
  • Quero a palavra que sirva na boca dos passarinhos.
  • Por pudor sou impuro.
  • Não preciso do fim para chegar.
  • De tudo haveria de ficar para nós um sentimento longínquo de coisa esquecida na terra — Como um lápis numa península.
  • Do lugar onde estou já fui embora.
(Em itálico - grifo meu)