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quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Ao tempo perdido



Onde você foi parar? Como que você some assim, de repente, sem avisar? Por onde você escapou, que eu não vi? Contava com a sua presença para fazer algumas coisas, que adoro, mas para as quais não me sobra mais nem um minuto.Dizem que o tempo perdido não volta jamais, no entanto custo a acreditar que você seria capaz de me largar dessa maneira depois de tudo que vivemos. Será verdade que o tempo é cruel? Terão sido em vão os lindos momentos que desperdiçamos juntos? As horas e horas pensando besteiras, com minhas intermináveis elucubrações?É, quando se é jovem, o tempo que se perde não faz tanta falta. Você passava e eu nem ligava. Agora, corro atrás de cada instante que, um dia, joguei fora sem dar a devida atenção.Querido tempo, queria muito que você voltasse. Poderíamos ir a um cinema, jantar fora, passear à toa pelas calçadas. Com o tempo ao seu lado, a vida definitivamente fica mais fácil.Sei que você não pára, que também está sempre na correria, como eu, contudo não perco a esperança de ainda ter você inteiro, só para mim. Vejo, no espelho, as marcas que você me deixou, e muitas outras delas quero ter antes de a morte chegar.O que posso prometer para que você retorne? Que eu vou aproveitar você melhor? Que vou dar mais valor às suas sábias lições? Que não te perderei mais por bobagens?Ajoelho-me diante de você, inestimável tempo, e juro: nunca mais vou vacilar contigo, pois sei que todos te querem e desejam. As mulheres mais lindas e os homens mais ricos perseguem você por todos os lugares, oferecendo de tudo para ter mais um pouco de sua companhia.Tudo gira em torno de você, tempo, eu sei. Poetas te cantam, gênios te estudam, líderes te seguem. E eu continuaria dias e dias tecendo as mais belas considerações a teu respeito, mas temo que estaria perdendo ainda mais de você fazendo isso.Devo, entretanto, avisar que não pretendo te esquecer nem deixar você em paz. Pode correr, pode fugir, que vou em busca de você, onde estiver. Cancelarei compromissos, emendarei feriados, mas tenho certeza de que te encontrarei de novo. Nem que seja por um só segundo. Quem sabe, então, quando estivermos frente a frente, verei que você não se foi em vão, que foi porque tinha mesmo de ir, passando em silêncio como o tempo deve passar.E que, na sua falta, não o terei perdido, porém eternizado.Saudades, Fernanda
(Fernanda Young)


Belo texto!!!

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

A cada grampo que enfio em meus cabelos, penso em você.
Todas as ruas dessa cidade, caminham num pensamento:
você.
Essa idiotice de estar sofrendo assim, essa saudade...
Você. Você. Você.
Eu aqui, sozinha, acompanhada, rindo, chorando, com vertigens.
Acho que estou caindo.
O estômago embrulha como na montanha-russa.
Você não é mais meu.
Você nunca foi meu.
Você nunca quis ser meu.
Estaríamos juntos se você quisesse.
Mas você disse:
não posso.
Não quero.
Preciso ficar longe.
Preciso deixar nós dois para trás
e ser somente um.
Você quer ser um.
Vou até o espelho, ajeito os meus cabelos de crina de cavalo,
entupo a cabeça de grampos resistentes.
Nunca mais cortarei um fio sequer.
Eles irão crescer, o tempo que me distancia de
você.
Os terei presos durante o dia.
Soltos à noite. Uma Rapunzel.
Cada centímetro será mais um mês que passou desde o dia
último em que nos vimos.
Você disse: preciso estar uno.
Agora estou sozinha, você amputou-se de mim.
Nunca mais cortarei esses cabelos
que você dizia amar.
Talvez numa madrugada insone, ou até dormindo,
quem sabe em sonho?, você suba até o meu quarto,
minha cabeça, e cansado do ímpar, implore:
deixe-me grudar de novo meu corpo no seu.
Se isso acontecer, príncipe encantado, eu retrucarei:
"Redime, ó Deus, Israel de todas as angústias",
minha memória, permita-me o esquecimento!
Então poderei cortar a minha trança,
esse calendário vivo, grosso,
negro brilhante em fios de um quase nylon,
pois a minha vida estará de novo começando.
Eu não quero um.
quero a estendida eternidade
que não se conta.
(Fernanda Young)

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

[...] Mas, meu amigo, sou singular e inteira. Sei amar. Sei chorar. Não me envergonho em perdoar. Sou santa. Sou boa. Sou a sua melhor lembrança. [...] (Fernanda Young)

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Não estou mais agüentando. A ansiedade - não mais aquela por bombons - poderá me estourar as veias. É o pior momento, esse, meio excitado, meio cansado, quando eu espero que campainhas toquem. Anunciando mudanças... E elas tocam, mas é somente um rapaz que me diz sobre a encomenda ou um engano ou uma ligação familiar. Nada mais de mudanças. - As mudanças, minha cara, só nas cores do cabelo, nas roupas e nos dias da regra mensal. Não! Não queiram que eu acredite que tudo o que eu vivo será eterno, igualmente bom, para o resto dos meus dias. Não posso viver com o igual, não posso sobreviver ao certo, não quero morrer com certezas. - Então vá se foder! E estrague esse lindo! (Fernanda Young)

sexta-feira, 18 de abril de 2008

A mulher vai até o espelho, de Fernanda Young

A mulher não consegue dormir. Tem medo. Receia encontrar antigos amores através do espelho dos sonhos:pesadelo. Quando adormece está de novo em um lugar distante, do outro lado da baía de águas turvas da cor dos mortos. A cor do Ganges. Viveu lá muito tempo e de lá viu de perto a traição. saiu de lá, também faz tempo, mesmo voltando sempre, pelo cansaço, sem distinguir o que é sensação e o que é realidade. [...] Ela é mulher, poeta que volta no tempo enquanto dorme, revendo o amor que acreditou na dissolução. [...] Vai até o espelho e se olha do avesso. Volta para a cama, espirra e traduz o certo do lado errado que viu. Nunca parei pra pensar neste poema...Incrível como hoje ele fez sentido!!! Leituras e leituras...

terça-feira, 16 de outubro de 2007

Navios, de Fernanda Young

Por que partiu assim silencioso? Feito vingança de mulher traída. Deixando-me com o gosto viçoso na boca, de sangue e ruim bebida. Não compreendo este ato malicioso, eu não merecia ser tão desprezada. Dei a languidez do meu corpo ocioso quando em troca não lhe pedi nada. Como se a dor que no peito sinto, não me deixasse por demais faminto, agora acendo velas sem pavios. recorro aos deuses, cantos e promessas: Meu amor, volte logo, bem depressa! Não agüento mais ficar vendo navios. Taí, amiga: prometido e cumprido. Abraços.

Votos de Submissão, de Fernanda Young

Caso você queira posso passar seu terno, aquele que você não usa por estar amarrotado. Costuro as suas meias para o longo inverno... Use capa de chuva, não quero ter você molhado. Se de noite fizer aquele tão esperdo frio poderei cobrir-lhe om o meu corpo inteiro. E verás como a minha pele de algodão macio, agora quente, será fresca quando for janeiro. Nos meses de outono eu varro a sua varanda, para deitarmos debaixo de todos os planetas. O meu cheiro te acolherá com toques de lavanda - Em mim há outras mulheres e algumas ninfetas - Depois plantarei para ti margaridas da primavera e aí no meu corpo somente você e leves vestidos, para serem tirados pelo seu total desejo de quimera. - Os meus desejos, irei ver nos seus olhos refletidos. - Mas quando for a hora de me calar e ir embora sei que, sofrendo, deixarei você longe de mim. Não me envergonharia de pedir ao seu amor esmola, mas não quero que o meu verão resseque o seu jardim. (Nem vou deixar - mesmo querendo - nenhuma fotografia. Só o frio, os planetas, as ninfetas e toda a minha poesia.) Esse poema é MARAVILHOSO.

sábado, 8 de setembro de 2007

[...] Vou assumir o meu ódio! Vou rir do meu ódio! Vou sobreviver ao meu ódio! Mesmo sabendo que estou razoavelmente sã e humanamente perdoada. Eu odeio o mundo que não me cabe. Cuspo na cara de quem finge não me ver. Detesto os premiados. Sou feia, má. Sou o que o descaso me faz imaginar de pior. E não quero mais me explicar. [...] (Fernanda Young)