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sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Acordar, viver

Como acordar sem sofrimento?
Recomeçar sem horror?
O sono transportou-me
àquele reino onde não existe vida
e eu quedo inerte sem paixão.


Como repetir, dia seguinte após dia seguinte,
a fábula inconclusa,
suportar a semelhança das coisas ásperas
de amanhã com as coisas ásperas de hoje?


Como proteger-me das feridas
que rasga em mim o acontecimento,
qualquer acontecimento
que lembra a Terra e sua púrpura
demente?
E mais aquela ferida que me inflijo
a cada hora, algoz
do inocente que não sou?


Ninguém responde, a vida é pétrea.

(Carlos Drummond de Andrade)

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Quando encontrar alguém

Quando encontrar alguém e esse alguém fizer seu coração para de funcionar 
por alguns segundos, preste atenção. Pode ser a pessoa mais importante da 
sua vida.
Se os olhares se cruzarem e neste momento houver o mesmo brilho intenso 
entre eles, fique alerta: pode ser a pessoa que você está esperando desde o 
dia em que nasceu.
Se o toque dos lábios for intenso, se o beijo for apaixonante e os olhos 
encherem d'água neste momento, perceba: existe algo mágico entre vocês.
Se o primeiro e o último pensamento do dia for essa pessoa, se a vontade de 
ficar juntos chegar a apertar o coração, agradeça: Deus te mandou um 
presente divino: o amor.
Se um dia tiver que pedir perdão um ao outro por algum motivo e em troca 
receber um abraço, um sorriso, um afago nos cabelos e os gestos valerem mais 
que mil palavras, entregue-se: vocês foram feitos um pro outro.
Se por algum motivo você estiver triste, se a vida te deu uma rasteira e a 
outra pessoa sofrer o seu sofrimento, chorar as suas lágrimas e enxugá-las 
com ternura, que coisa maravilhosa: você poderá contar com ela em qualquer 
momento de sua vida.
Se você conseguir em pensamento sentir o cheiro da pessoa como se ela 
estivesse ali do seu lado... se você achar a pessoa maravilhosamente linda, 
mesmo ela estando de pijamas velhos, chinelos de dedo e cabelos 
emaranhados...
Se você não consegue trabalhar direito o dia todo, ansioso pelo encontro que 
está marcado para a noite... se você não consegue imaginar, de maneira 
nenhuma, um futuro sem a pessoa ao seu lado...
Se você tiver a certeza que vai ver a pessoa envelhecendo e, mesmo assim, 
tiver a convicção que vai continuar sendo louco por ela... se você preferir 
morrer antes de ver a outra partindo: é o amor que chegou na sua vida. É uma 
dádiva.
Muitas pessoas apaixonam-se muitas vezes na vida, mas poucas amam ou 
encontram um amor verdadeiro. Ou às vezes encontram e por não prestarem 
atenção nesses sinais, deixam o amor passar, sem deixá-lo acontecer 
verdadeiramente.
É o livre-arbítrio. Por isso preste atenção nos sinais, não deixe que as 
loucuras do dia a dia o deixem cego para a melhor coisa da vida: o amor.
Carlos Drummond de Andrade

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Feliz Ano Novo!!!


"Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre".

(Trecho de Receita de ano novo, de Carlos Drummond)

domingo, 26 de abril de 2009

Cuidado, de Carlos Drummond de Andrade.

    Cuidado

A porta cerrada não abras. Pode ser que encontres o que não buscavas nem esperavas.

Na escuridão pode ser que esbarres no casal em pé tentando se amar apressadamente.

Pode ser que a vela que trazes na mão te revele, trêmula, tua escrava nova, teu dono-marido.

Descuidosa, a porta apenas cerrada pode te contar conto que não queres saber.

domingo, 21 de dezembro de 2008

A língua girava no céu da boca (Drummond).

A língua girava no céu da boca. Girava! Eram duas bocas, no céu único. O sexo desprendera-se de sua fundação, errante imprimia-nos seus traços de cobre. Eu, ela, elaeu. Os dois nos movíamos possuídos, trespassados, eleu. A posse não resultava de ação e doação, nem nos somava. Consumia-nos em piscina de aniquilamento. Soltos, fálus e vulva no espaço cristalino, vulva e fálus em fogo, em núpcia, emancipados de nós. A custo nossos corpos, içados do gelatinoso jazigo, se restituíram à consciência. O sexo reintegrou-se. A vida repontou: a vida menor.
Extraído do livro "O amor natural", Editora Record – RJ, 1992, pág. 29. Ilustração: Caco Xavier

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Mãos dadas, Drummond...

Mãos dadas
Não serei o poeta de um mundo caduco. Também não cantarei o mundo futuro. Estou preso à vida e olho meus companheiros Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças. Entre eles, considere a enorme realidade. O presente é tão grande, não nos afastemos. Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas. Não serei o cantor de uma mulher, de uma história. Não direi suspiros ao anoitecer, a paisagem vista na janela. Não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida. Não fugirei para ilhas nem serei raptado por serafins. O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes,a vida presente.

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Verdade, de Drummond

Verdade A porta da verdade estava aberta,mas só deixava passar meia pessoa de cada vez. Assim não era possível atingir toda a verdade,porque a meia pessoa que entrava só trazia o perfil de meia verdade. E sua segunda metade voltava igualmente com meio perfil. E os meios perfis não coincidiam. Arrebentaram a porta. Derrubaram a porta. Chegaram ao lugar luminoso onde a verdade esplendia seus fogos. Era dividida em metades diferentes uma da outra. Chegou-se a discutir qual a metade mais bela. Nenhuma das duas era totalmente bela. E carecia optar. Cada um optou conformeseu capricho, sua ilusão, sua miopia.

segunda-feira, 20 de agosto de 2007

"Por muito tempo achei que a ausência é falta. E lastimava, ignorante, a falta. Hoje não a lastimo. Não há falta na ausência. A ausência é um estar em mim. E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços, que rio e danço e invento exclamações alegres, porque a ausência, essa ausência assimilada, ninguém a rouba mais de mim". (Drummond)

sexta-feira, 27 de julho de 2007

Sou o Velho Cansado
Sou o Velho Cansado que adora o seu cansaço e não o quer submisso ao vão comércio da palavra. Poupem-me, por favor ou por desprezo, se não querem poupar-me por amor. (Drummond)