quarta-feira, 31 de outubro de 2007

Que calor é esse? Dá um desâmimo, uma vontade de não sair de casa e, assustada, lembro-me de um livro que li ano passado "Não verás país nenhum", de Ignácio de Loyola Brandão. O texto é maravilhoso, fascinante, só há um problema: ele nos causa um pavor imenso, mexe com a nossa cabeça, deixa tudo meio desarrumado... O motivo: DESCUBRA! LEIA! E o mais importante REFLITA. *Dica de leitura: se quiser parar a leitura no meio do caminho ou logo no início, faça...o retorno é inevitável. "Quando voltei, encontrei um mundo que não conhecia. Dia a dia penetro nele. Verifico que preciso, primeiro, me reconhecer outra vez, me identificar. Confesso, estou desesperançado. A cada momento indago se vale a pena o esforço para sobreviver, ou para renascer. E a resposta custa a chegar". (p.160)

quinta-feira, 25 de outubro de 2007

Meneio, de Renato Augusto F. de Carvalho

Diagramava fases no ofícío difícil do equilíbrio Ficava bêbado mas não errava (dizia que era sono) A amada, que o amava, sabia (era vinho) Deitava com ele perdia-se no hálito E o perdoava. Lindo demais!!!

quarta-feira, 24 de outubro de 2007

"apagar-me diluir-me desmanchar-se até que depois de mim de nós de tudo não reste mais que o charme" (Leminski)
"A poesia não se entrega a quem a define. Mas para mim é uma coisa louca. A diferença entre um poeta e um louco é que o louco não sabe que é louco e o poeta sabe. A poesia é uma loucura lúcida." (Mário Quintana)

terça-feira, 23 de outubro de 2007

Todas as cartas de amor são ridículas...

Todas as cartas de amor são
Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas. Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
Como as outras,
Ridículas. As cartas de amor, se há amor,
Têm de ser
Ridículas. Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca escreveram
Cartas de amor
É que são
Ridículas. Quem me dera no tempo em que escrevia
Sem dar por isso
Cartas de amor
Ridículas. A verdade é que hoje
As minhas memórias
Dessas cartas de amor
É que são
Ridículas.
(Todas as palavras esdrúxulas,
Como os sentimentos esdrúxulos,
São naturalmente
Ridículas.)
(Álvaro de Campos, 21-10-1935)

domingo, 21 de outubro de 2007

"Eu te procurei em dicionários e não encontrei teu significado. Onde está teu sinônimo no mundo? Onde está o meu sinônimo na vida? Sou ímpar."
(Um Sopro de Vida - C.Lispector)
...a gente carece de fingir às vezes que raiva tem, mas raiva mesma nunca se deve de tolerar de ter. Porque, quando se curte raiva de alguém, é a mesma coisa que se autorizar que essa própria pessoa passe durante o tempo governando a idéia e o sentir da gente. In: Grande Sertão: Veredas

quarta-feira, 17 de outubro de 2007

A hora íntima, de Vinicius de Moraes

Quem pagará o enterro e as flores Se eu me morrer de amores? Quem, dentre amigos, tão amigo Para estar no caixão comigo? Quem, em meio ao funeral Dirá de mim: – Nunca fez mal... Quem, bêbedo, chorará em voz alta De não me ter trazido nada? Quem virá despetalar pétalas No meu túmulo de poeta? Quem jogará timidamente Na terra um grão de semente? Quem elevará o olhar covarde Até a estrela da tarde? Quem me dirá palavras mágicas Capazes de empalidecer o mármore? Quem, oculta em véus escuros Se crucificará nos muros? Quem, macerada de desgosto Sorrirá: – Rei morto, rei posto... Quantas, debruçadas sobre o báratro Sentirão as dores do parto? Qual a que, branca de receio Tocará o botão do seio? Quem, louca, se jogará de bruços A soluçar tantos soluços Que há de despertar receios? Quantos, os maxilares contraídos O sangue a pulsar nas cicatrizes Dirão: – Foi um doido amigo... Quem, criança, olhando a terra Ao ver movimentar-se um verme Observará um ar de critério? Quem, em circunstância oficial Há de propor meu pedestal? Quais os que, vindos da montanha Terão circunspecção tamanha Que eu hei de rir branco de cal? Qual a que, o rosto sulcado de vento Lançará um punhado de sal Na minha cova de cimento? Quem cantará canções de amigo No dia do meu funeral? Qual a que não estará presente Por motivo circunstancial? Quem cravará no seio duro Uma lâmina enferrujada? Quem, em seu verbo inconsútil Há de orar: – Deus o tenha em sua guarda. Qual o amigo que a sós consigo Pensará: – Não há de ser nada... Quem será a estranha figura A um tronco de árvore encostada Com um olhar frio e um ar de dúvida? Quem se abraçará comigo Que terá de ser arrancada? Quem vai pagar o enterro e as flores Se eu me morrer de amores? Rio de Janeiro, 1950

terça-feira, 16 de outubro de 2007

Navios, de Fernanda Young

Por que partiu assim silencioso? Feito vingança de mulher traída. Deixando-me com o gosto viçoso na boca, de sangue e ruim bebida. Não compreendo este ato malicioso, eu não merecia ser tão desprezada. Dei a languidez do meu corpo ocioso quando em troca não lhe pedi nada. Como se a dor que no peito sinto, não me deixasse por demais faminto, agora acendo velas sem pavios. recorro aos deuses, cantos e promessas: Meu amor, volte logo, bem depressa! Não agüento mais ficar vendo navios. Taí, amiga: prometido e cumprido. Abraços.

Votos de Submissão, de Fernanda Young

Caso você queira posso passar seu terno, aquele que você não usa por estar amarrotado. Costuro as suas meias para o longo inverno... Use capa de chuva, não quero ter você molhado. Se de noite fizer aquele tão esperdo frio poderei cobrir-lhe om o meu corpo inteiro. E verás como a minha pele de algodão macio, agora quente, será fresca quando for janeiro. Nos meses de outono eu varro a sua varanda, para deitarmos debaixo de todos os planetas. O meu cheiro te acolherá com toques de lavanda - Em mim há outras mulheres e algumas ninfetas - Depois plantarei para ti margaridas da primavera e aí no meu corpo somente você e leves vestidos, para serem tirados pelo seu total desejo de quimera. - Os meus desejos, irei ver nos seus olhos refletidos. - Mas quando for a hora de me calar e ir embora sei que, sofrendo, deixarei você longe de mim. Não me envergonharia de pedir ao seu amor esmola, mas não quero que o meu verão resseque o seu jardim. (Nem vou deixar - mesmo querendo - nenhuma fotografia. Só o frio, os planetas, as ninfetas e toda a minha poesia.) Esse poema é MARAVILHOSO.

Transit, de Artur Azevedo

Tu és dona de mim, tu me pertences, e, nesse delicioso cativeiro, não queres crer que, ingrato e bandoleiro, possa eu noutra pensar, ou noutro penses. Doce cuidado meu, não te convences de que tudo na terra é passageiro, frívolo, fútil, rápido, ligeiro, e a pertinácia do erro teu não vences! Num belo dia - hás de tu ver - desaba esta velha afeição, funda e comprida, que tanta gente nos inveja e gaba... Choras? Para que lágrimas, querida? Naturalmente o amor também se acaba, como tudo se acaba na vida. O mais interessante é que chorei tanto a primeira vez que li esse poema...

segunda-feira, 15 de outubro de 2007

Isso é tão difícil...

"Quero ser o teu amigo.
Nem demais e nem de menos. Nem tão longe e nem tão perto. Na medida mais precisa que eu puder. Mas amar-te sem medida e ficar na tua vida, Da maneira mais discreta que eu souber. Sem tirar-te a liberdade, sem jamais te sufocar. Sem forçar tua vontade. Sem falar, quando for hora de calar. E sem calar, quando for hora de falar. Nem ausente, nem presente por demais. Simplesmente, calmamente, ser-te paz. É bonito ser amigo, mas confesso é tão difícil aprender! E por isso eu te suplico paciência. Vou encher este teu rosto de lembranças, Dá-me tempo, de acertar nossas distâncias..." (Fernando Pessoa)

Crônica do Dia: HÁ UM ANO... >> Eduardo Loureiro Jr.

Crônica do Dia: HÁ UM ANO... >> Eduardo Loureiro Jr.
"Agora é um instante. Já é outro agora". (Lispector)
"A vida é a hesitação entre uma exclamação e uma interrogação. Na dúvida, há um ponto final." (Livro do Desassossego, p.347).

sábado, 13 de outubro de 2007

Com a palavra Rubem Alves: - Sobre a poesia: “Somente tardiamente descobri a poesia, depois de haver virado os 40. Que pena! Quanto tempo perdido! A poesia é uma das minhas maiores fontes de alegria e sabedoria. Como disse Bachelard, “os poetas nos dão uma grande alegria de palavras...“ Aí eu lhe pergunto: Você lê poesia? Se não lê, trate de ler. Troque os tolos programas de televisão pela poesia. Se você me disser que não entende poesia eu baterei palmas: Que bom! Somente os tolos pensam entender a poesia! Somente os intérpretes têm a pretensão de vir a entender a poesia! A poesia não é para ser entendida. Ela é para ser vista. Leia o poema e trate de ver o que ele pinta! Você precisa entender um luar? Uma nuvem? Uma árvore? O mar? Basta ver. Ver, sem entender, é uma felicidade! Assim, leia a poesia para que os seus olhos sejam abertos. Dicas: Cecília Meireles, Adélia Prado, Alberto Caeiro, Mário Quintana, Lya Luft, Maria Antônia de Oliveira. Leia poesia para ver melhor. Leia poesia para ficar tranquilo. Leia poesia para ficar mais bonito. Leia poesia para aprender a ouvir. Você já considerou a possibilidade de que você, talvez, fale demais?” - Os Surdo-Mudos Cantam: Aconteceu em Uberaba. Disseram-me que antes da minha fala haveria um coro de crianças surdas que cantaria o hino nacional. Desacreditei. Crianças surdas não cantam. Aí entraram as crianças no palco. Um menininho de não mais que quatro anos de idade olhava espantado para aquele mundaréo de pessoas, todo mundo olhando para ele! Entrou a regente e fez-se silêncio. Silêncio para nós porque para os surdos é sempre silêncio. Iniciou-se o hino nacional. Os acordes introdutórios. A regente levantou os braços... e eles cantaram o hino nacional com gestos! Cantaram com as mãos, os braços, os olhos, o rosto, o corpo inteiro! A voz calada, o corpo cantando! Ouvimos a música que mora no silêncio. Terminado o hino todas as crianças se abriram num enorme sorriso e correram a abraçar a regente. E aí, cantaram para mim a “Serra da Boa Esperança”. Por vezes não é possível não chorar... *Recebido por e-mail: Em homenagem ao Dia dos Professores...

segunda-feira, 8 de outubro de 2007

A pergunta..

O que você vai ser quando crescer? Vai ser o que sonhar, o que quiser, o que faltar, o que puder, o que sobrar, o que couber? O que você vai ser quando o mundo crescer?

A resposta... Quando crescer eu vou ser anjo eu vou ser múmia ou marciano Quando crescer vou ser cigano vou ser robô vou ser fulano Quando crescer Não vou ser POUCO e vou ser rei ou vou ser louco.. Quando crescer e olhar a foto vou ser EU MESMO e vou ser OUTRO.. (Léo Cunha)

quarta-feira, 3 de outubro de 2007

Confidência do Itabirano Alguns anos vivi em Itabira. Principalmente nasci em Itabira. Por isso sou triste, orgulhoso: de ferro. Noventa por cento de ferro nas calçadas. Oitenta por cento de ferro nas almas. E esse alheamento do que na vida é porosidade e comunicação.

A vontade de amar, que me paralisa o trabalho, vem de Itabira, de suas noites brancas, sem mulheres e sem horizontes.

E o hábito de sofrer, que tanto me diverte, é doce herança itabirana.

De Itabira trouxe prendas diversas que ora te ofereço: esta pedra de ferro, futuro aço do Brasil, este São Benedito do velho santeiro Alfredo Duval; este couro de anta, estendido no sofá da sala de visitas; este orgulho, esta cabeça baixa...

Tive ouro, tive gado, tive fazendas. Hoje sou funcionário público. Itabira é apenas uma fotografia na parede. Mas como dói!

(Drummond)

terça-feira, 2 de outubro de 2007

Inutilidades

Ninguém coça as costas da cadeira. Ninguém chupa a manga da camisa. O piano jamais abana a cauda. Tem asa, porém, não voa, a xícara. De que serve o pé da mesa se não anda? E a boca da calça se não fala nunca? Nem sempre o botão está na sua casa. O dente de alho não morde coisa alguma. Ah! se trotassem os cavalos do motor... Ah! se fosse de circo o macaco do carro... Então a menina dos olhos comeria Até bolo esportivo e bala de revólver. (José Paulo Paes)